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A nova corrida da IA no Direito

Um escritório reservou US$ 500 milhões para IA. O número impressiona, mas esconde o que realmente está em disputa. Descubra o que você precisa saber sobre essa nova fase da IA no Direito.

Um escritório de advocacia decidiu gastar US$ 500 milhões em inteligência artificial.

Não em licença de ChatGPT. Não em assinatura de ferramenta jurídica. O objetivo é construir a própria IA do zero, ao longo de três a quatro anos. Mais de US$ 100 milhões só em 2026.

O escritório é o Kirkland & Ellis, o maior do mundo em faturamento. Quando li o número pela primeira vez, a reação natural foi a mesma que você provavelmente teve agora: "ótimo, mas isso é problema de gigante americano. Não tem nada a ver comigo."

O problema é que tem. E é exatamente sobre isso essa edição.

A cifra investida é a parte que menos importa. O que importa é o que ele revela: a IA no Direito mudou de fase. E quem entender essa virada agora sai na frente. E não é necessário meio bilhão de dólares, mas uma coisa muito mais barata e muito mais difícil de copiar.

Vamos por partes.

A primeira fase acabou

Nos últimos dois anos, a conversa sobre IA no Direito foi basicamente uma: qual ferramenta usar?

ChatGPT ou Gemini? Vale pagar Harvey? Assinar o plano Max do Claude? Qual ferramenta jurídica assinar? Foi sobre isso que escrevi na edição em que abri o sistema inteiro de IA que utilizo no escritório. Foi uma fase legítima. Necessária. Todo mundo precisa passar por ela.

Só que essa fase está terminando.

Nos grandes escritórios e tribunais, a pergunta mudou. Não é mais "qual ferramenta a gente assina esse ano?". É "que infraestrutura própria a gente constrói para os próximos dez anos?". Deixar de depender do que a ferramenta de fora oferece e passar a ser dono do sistema, dos dados e do processo.

Repare na diferença. Comprar ferramenta é consumo. Construir capacidade é acúmulo. Uma você refaz todo mês quando aparece um modelo melhor. A outra fica.

E quando você olha os casos mais avançados do mundo com essa lente, um padrão aparece. Sempre os mesmos quatro componentes, combinados.

Os quatro componentes da nova corrida

Fiz um levantamento dos movimentos mais relevantes dos últimos meses — Reuters, Bloomberg Law, fontes oficiais de escritórios e do Judiciário. Escritório americano, banca inglesa, tribunal brasileiro. Realidades completamente diferentes.

E, mesmo assim, a receita se repete:

1. Modelo externo. GPT, Claude, Gemini. Ninguém está treinando o próprio modelo do zero. Seria caro e inútil. Todos usam os modelos de fronteira que já existem, e a maioria de forma model-agnostic: arquitetura montada para trocar de fornecedor sem reconstruir tudo. O Kirkland foi explícito nisso.

2. Infraestrutura própria. A camada que fica em cima do modelo. Bases de conhecimento, segurança, integração, controle de permissão. É aqui que o dinheiro do Kirkland vai: mais de 180 engenheiros e cientistas de dados, clusters de GPU, plataforma proprietária.

3. Conhecimento institucional. E aqui está o ponto que muda tudo. O Fried Frank construiu uma ferramenta que consulta o trabalho anterior do próprio escritório e recupera os precedentes que ele já usou. O Clifford Chance pegou 400 mil documentos internos, reorganizou e resumiu cada um para virar uma base "pronta para IA". O ativo estratégico deixou de ser o modelo. Virou o que a organização já sabe.

4. Capacitação permanente. Gente treinada para operar tudo isso. E não como cursinho de boas-vindas. E sim como infraestrutura de verdade.

Guarde esses quatro. Vamos voltar neles.

O caso que resume a virada

De todos que li, o Shoosmiths — banca britânica — é o que melhor traduz aonde isso vai.

Eles construíram uma ferramenta chamada Project Apollo para revisar contratos. Até aí, nada de novo; ferramenta de revisão contratual existe às dúzias. A diferença está numa decisão de projeto: o Apollo foi desenhado, de propósito, para explicar por que cada alteração é recomendada.

Ou seja: ele não devolve só a resposta. Ela explica o raciocínio.

E a intenção declarada é que o advogado júnior aprenda com a inteligência acumulada dos sócios mais experientes enquanto trabalha. A ferramenta virou professor.

Pensa no que isso significa. Durante décadas, a formação do advogado júnior foi um processo lento e artesanal: você errava, o sócio corrigia, você entendia, repetia. O Apollo tenta comprimir esse ciclo. Transformar a experiência dos melhores em algo que se transmite em escala.

O quarto componente — capacitação — parou de ser acessório. Virou o produto.

Agora vamos para o contexto brasileiro

Se você chegou até aqui pensando "bonito, mas é tudo lá fora", olha o que está acontecendo aqui.

O CNJ não está mais só "usando ChatGPT". Está montando infraestrutura nacional. Lançou a ApoIA 2.0, assistente para magistrados e servidores — que já vem com defesa contra prompt injection, aquele tipo de manipulação escondida dentro de um documento processual. Lançou o Atalaia, que cruza dados de processos, partes e advogados para detectar litigância abusiva em massa. Aprovou um programa nacional de segurança em IA.

O TRF4 fez talvez a coisa mais sofisticada do país em formação: um Plano Unificado de Capacitação em IA que forma multiplicadores. Treina magistrados e servidores que depois viram professores dos próprios colegas. É uma academia interna de IA. O quarto componente, de novo.

O TJMT lançou a OMNIA — uma ferramenta de IA construída pelos próprios servidores do tribunal. Não comprada. Feita por dentro, por quem conhece o processo por dentro.

E o TJMG abriu um curso de IA aplicada ao Direito com 2.000 vagas. Aberto inclusive ao público externo.

Percebe o que está acontecendo? A mesma receita de quatro componentes do escritório de US$ 500 milhões está rodando num tribunal estadual brasileiro. A escala muda. O padrão não.

Isso derruba a desculpa mais confortável: a de que essa história é coisa de gigante. Não é. É estrutura. E ela está sendo montada bem ao seu redor. Agora. Neste momento.

E aqui está o que quase ninguém está falando

Volta nos quatro componentes por um segundo.

Modelo externo: qualquer um compra. Infraestrutura: dá para terceirizar. Conhecimento institucional: leva tempo, mas se organiza.

Agora repara: em todos os casos, o gargalo real nunca foi tecnologia. Foi gente que sabe operar.

O Rocha Calderon, escritório brasileiro que migrou para plataforma própria, disse isso com todas as letras: o principal desafio "não é tecnológico, é fazer os profissionais incorporarem a nova forma de trabalhar."

Deixa-me trazer isso para o seu contexto.

Uma pesquisa da Reuters mostrou que 48% dos advogados em início de carreira já usam IA diariamente. E que 96% deles nunca tinham usado IA na faculdade.

Leia essas duas linhas juntas. Uma geração inteira está usando uma ferramenta que ninguém ensinou a usar. Todo dia. Em documento que vai para o processo.

Esse é o buraco. E ele não se fecha comprando mais uma assinatura.

A parte incômoda

Existe uma crença confortável circulando por aí: a de que a IA é tão fácil que dispensa formação. "É só conversar com ela, né?"

É o contrário.

Quanto mais poderosa a ferramenta, mais perigoso o operador despreparado. E o perigo tem duas camadas.

A primeira é visível. Um advogado que não sabe que a IA inventa jurisprudência com formato perfeito vai assinar a peça e descobrir o erro no pior lugar possível: na intimação. Foram 255 profissionais punidos por isso só em 2025. Essa camada machuca, mas pelo menos dá para ver.

A segunda é silenciosa, e por isso é pior. Quando você usa IA, o esforço mental migra: sai da criação e vai para a verificação, a seleção e a integração das respostas. Deixa de ser quem constrói o raciocínio e passa a ser quem confere o raciocínio pronto. Parece um bom negócio. E às vezes é. Mas tem um custo que ninguém sente na hora.

Confiar demais na ferramenta está associado a menos esforço crítico. E a IA produz uma armadilha específica: a ilusão de domínio. Você recebe uma resposta boa, bem escrita, coerente, e sai acreditando que entendeu o assunto melhor do que realmente entendeu. O resumo da IA ajuda você a lembrar o fato.

Mas usar a IA no lugar da busca e da síntese ativa — o trabalho chato de garimpar, comparar e montar sozinho — produz uma compreensão mais rasa.

Você fica com a resposta na mão e sem o conhecimento na cabeça.

Um profissional que não percebe isso vai confundir texto que "soa bem" com trabalho confiável. E, pior, vai confundir ter a resposta com entender o problema.

A ferramenta não protege o operador. O operador protege a si mesmo.

E método não vem de graça no pacote. Vem de formação. Real, prática, feita por quem opera de verdade e não por quem só assistiu ao lançamento.

É por isso que aquele detalhe do Shoosmiths é o mais importante de toda a pesquisa. O escritório mais avançado nesse assunto não gastou o esforço construindo um robô que substitui advogado. Gastou construindo um robô que forma advogado. Porque eles entenderam onde está a vantagem que não se compra.

O que isso significa para você

Não estou dizendo para você investir em uma infraestrutura própria. Nem contratar 180 engenheiros. Nem lançar sua própria plataforma.

Estou dizendo três coisas mais simples e mais úteis:

Primeiro: pare de perguntar só "qual IA eu uso?". Essa é a pergunta da fase que acabou. Comprar ferramenta qualquer um faz em cinco minutos no cartão de crédito. A pergunta da fase nova é outra: "o que estou construindo a longo prazo?" Quando você monta um jeito próprio de fazer a IA pesquisar jurisprudência do seu nicho e conferir cada citação. Quando você organiza seus modelos de peça, seus pareceres, suas decisões antigas num lugar que a IA consiga consultar. Quando você desenvolve o seu próprio método de trabalhar com a ferramenta e não repete o prompt que viu num story. Isso fica. Isso é seu. E não some quando aparece um modelo novo mês que vem.

Segundo: o seu maior ativo não é o acesso à ferramenta. É a sua experiência jurídica. O capital intelectual que você levou anos para acumular. A IA é o que transforma esse capital em alavanca. Mas só se você souber operá-la com rigor.

Sem isso, sua experiência continua presa dentro da sua cabeça, do jeito que sempre esteve.

Terceiro: a corrida da IA no Direito não vai premiar quem tem IA. Todo mundo vai ter. Vai premiar quem sabe operar IA com método. Quem verifica, quem sabe quando usar, quem sabe onde a ferramenta mente. Isso é formação. E formação, hoje, é o investimento com o melhor retorno que existe no Direito.

Os grandes já entenderam. Estão gastando centenas de milhões para construir infraestrutura e formando gente para operá-la ao mesmo tempo, porque perceberam que a máquina sozinha não vale nada.

Você não precisa de infraestrutura de meio bilhão. Mas precisa da mesma decisão que está por trás dela: investir em conhecimento.

E aqui vale o cuidado que atravessa essa edição inteira. Não conhecimento raso — não o "assisti a um tutorial e agora sei usar", que é justamente a ilusão de domínio de que falei. A ferramenta muda a cada mês. O modelo de hoje não é o de amanhã. O prompt que funcionava ano passado já ficou velho. Num terreno que se move nessa velocidade, conhecimento pontual vira conhecimento vencido em semanas.

O que fica não é o que você aprendeu uma vez. É a sua capacidade de continuar aprendendo. Formação contínua, não curso avulso.

A nova corrida não é por prompt. É por capacidade. E capacidade, no fim, é uma escolha de formação constante — não de orçamento.

Até a próxima.

P.S. Se essa edição fez sentido para você, eu montei dois caminhos de formação contínua. A Mentoria em IA é o caminho individual, para quem quer construir o próprio método de trabalho com a ferramenta. O Treinamento de Equipes é para escritório, departamento ou tribunal que precisa formar o time inteiro.

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